CAOVILLA
Autor: Ruvie Henrique Caovilla Bossoni
Introdução
Hoje procurarei contar a história de uma família que escolheu expandir suas raízes a um outro continente, na esperança de que um mundo novo surgisse aos seus descendentes.
Tentarei referir aqui: a primeira vida, as dificuldades da chegada ao Novo Mundo, as emoções, a saudade da terra, o aumento dos lugares conquistados, a esperança de uma nova vida, afim de que todos os descendentes destes bravos lutadores possam experimentar hoje, ainda que em sonho ou na fantasia, os momentos relatados.
Desejo que todos aqueles que lêem este pequeno relato, sintam por um instante, uma emoção muito grande que foi transmitida de pai para filho, para que nossa família não fosse esquecida no tempo.
Quando percorri estradas e visitei lugares onde viveram meus ancestrais, estremeci, e em certas ocasiões a emoção era tão grande que as lágrimas brotavam nos meus olhos e a impressão que tive era a de estar vivendo, na realidade, aqueles momentos.
Desejo que, ao ler estas páginas, vocês sintam o mesmo, e que a emoção também os leve ao passado e possam "viver os momentos" que serão narrados.
Sejam bem-vindos à história dos Caovilla!
A história desta história
Não é fácil relatar a história vida das famílias em geral, e a da nossa família não é diferente. Mas como tudo tem um princípio nossa história também tem.
Em 1989, à minha cidade, Frederico Westphalen chegou um casal proveniente da cidade de Cavasagra, Itália. Rino Ambrosi e esposa vieram visitar seus familiares de Frederico Westphalen, primos da família Caeran dos quais, por coincidência uma prima era namorada de um irmão meu.
Em minha casa, conversando com minha mãe e posteriormente com meu avo Henrique Caovilla, Rino e sua esposa se ofereceram para procurar algum descendente Caovilla na Itália. Meu avo lhes dissera que seu pai Ferdinando Caovilla tinha vindo da região de Cavasagra.
O casal Ambrosi, retornando à Itália, se puseram a procurar por nossos parentes Italianos. Na lista telefônica encontraram o sobrenome Caovilla, os quais, eu mesmo fui procura-los. O Senhor Rino Ambroisi e sua esposa visitaram Eugenia Caovilla Bison em Mogliano Veneto e Giuseppe Caovilla em Cavasagra.
Eugênia Caovilla Bison comunicou-se com Emilia Caovilla Drigo em S. Stino di Livenza, e ambas, imediatamente se comunicaram com meu avo Henrique, em Frederico Westphalen.
Graças ao empenho da família Ambrosi, pudemos estabelecer contato com os Caovilla italianos, já que os endereços que meu avo Henrique possuía tinham sido queimados por um incêndio, juntamente com documentos que traziam a árvore genealógica da família.
Procurarei, aqui, acrescentar os fatos e refazer a Árvore Genealógica da Família Caovilla, que, ainda que pequena, seguramente será maior do que se possa imaginar.
Graças à comunicação entre os Caovilla brasileiros e os italianos pude ter acesso a objetos e fatos que me ajudaram a escrever a história que, com a colaboração dos italianos Maria Grazia Caovilla, Emilia C. Drigo, Giuseppe C., Mario C. Bison, Eugenia C. Bison, Silvano C., Flavia C. Drigo e Emilio Caovilla e do brasileiro Henrique Caovilla, de uma maneira simples, mas emocionante, descreverei a vocês.
Quando escrevi a minha primeira carta à nonna Eugenia me emocionei e, quando recebi a resposta me admirei, pois nunca havia sonhado de conseguir comunicar-me com alguém que nem imaginava existir em um outro lugar tão distante. Foi bom. Melhor que isso somente quando falei com ela por telefone. E observem bem que eu não sabia falar italiano.
Cartas e cartas foram enviadas e recebidas, até que por um auxilio do destino, em 1990 recebi de meus pais um presente: uma viagem para a Itália. Imaginem só! Depois de cem anos que meu bisavô chegou ao Brasil eu iria ao lugar de onde ele partira. Era grande a emoção!
Para um jovem como eu, era emocionante. Somente um detalhe me incomodava. Iria só para um país estranho, sem conhecer ninguém e sem falar corretamente a língua deste povo. Sonho? Não sei. Só percebi que era real quando embarquei no avião em Porto Alegre rumo a Milão na Itália.
Vôo de dez horas e cinqüenta minutos. Tempo que não acabava mais. Sonho como seria a chegada. Ansiedade.
Quando aterrissei em Malpensa, Milão, um tremor se abateu sobre minhas pernas, que, porém, aliviou depois da alfândega e de uma porta de vidro que dizia: saída.
A porta se abriu, saí, e lá estavam pra me receber os primos Caovilla italianos: Silvano e família, Flávia C. Drigo, seu filho Lucca; Mario C. Bison e seu filho Stefano. Abraços, fotos, perguntas... Eu, um pouco atordoado, mas feliz com tudo isso. Em seguida, ônibus, trem e, enfim, Mogliano Veneto, cidade onde habitava nonna Eugênia, e onde permaneceria. Esperavam-me com uma pequena festa, pois era a primeira vez que um Caovilla brasileiro pisava terra italiana para conhecer os seus parentes italianos.
Fiquei feliz ao observar que todos eram como nós, os Caovilla brasileiros, ou seja, alegres felizes e familiares. Fui conhecendo um a um e falavam um pouco de tudo. Depois de dois dias já falava "tão bem" o italiano que não parecia um estrangeiro.
Depois de tanto caminhar, conhecer lugares, viver grandes emoções, retornei com lágrimas nos olhos recordando-me dos meus parentes, dos amigos que lá deixei e dos meus avós italianos.
Para eles deixo apenas uma frase: quando nos vermos novamente verão o quanto os estimo e os amo... um beijo do neto.
Os fatos e datas que consegui recolher demonstrarei a todos. Não foi fácil estabelecer com exatidão a origem de nossa família. Muitas coisas permanecerão sem resposta, e somente o tempo, ou outro descendente interessado poderá descobrir e desvelar.
O significado e o início
Caovilla, para o brasileiro, significa um nome para designar os descendentes de uma geração de imigrantes italianos, que resolveram partir para um outro mundo.
Na verdade, este sobrenome é coberto de lendas impressionantes que servem para engrandecer o seu significado.
É difícil estabelecer, com exatidão o ano de surgimento dos primeiros Caovilla, por não haver um registro definido da data e nem se sabe quais os descendentes que conservam os documentos que a possam confirmar. Lendas e estórias contadas por ancestrais nos fazem voltar no tempo, numa tentativa de chegar aos primórdios de nossa família.
Difícil, também, é saber com exatidão, a nacionalidade inicial dos Caovilla: italiana, francesa, suíça, austríaca... Nós, Caovilla brasileiros, somos descendentes dos italianos, visto que os nossos ascendentes diretos vieram da Itália, mas existe na mente de alguns italianos, uma interrogação sobre o assunto.
Uma das lendas diz que Caovilla surge de dois termos: CAO = fundo, e VILLA = uma espécie de fazenda onde trabalhavam muitas pessoas e que tinha uma mansão habitada pela família do proprietário, assim, Caovilla significaria "o que mora no fundo da fazendo". De outro lado, o dono da fazendo era chamado Capo = patrão, da onde a origem do nome Capovilla (=patrão da fazenda).
Próximo a Pádua, olhando o mapa, encontramos algo que me fez crer nesta lenda. Existe uma estrada chamada Via Caovilla, de cerca de 500 m que termina nos fundos de uma Villa. Não conseguimos ir além em nossas especulações pois não encontramos nenhum Caovilla nesta rua e ninguém dali jamais conhecera alguém com este sobrenome.
Outra hipótese levantada pela força desta Via Caovilla foi a possível passagem de um ancestral nosso ao local na época da colonização(?). Isso não conseguimos confirmar. Certo é que existe a tal Via Caovilla, inclusive nos mapas da região, e que termina nos fundos de uma grande Villa, porém não existem registros da família na Prefeitura local.
Rodando pelo norte italiano, chegamos a outro local onde surge outra lenda: Aquiléia, próximo á Áustria, Iugoslávia. Ali a estória é mais interessante.
Aquiléia era considerada segunda Roma, e tudo o que existe lá lembra Roma, desde o foro até a Via Ápia.
Nossos parentes em Aquiléia dizem que Caovilla não tem origem italiana, mas é uma mistura franco-austríaca, segundo a lenda.
Emilio Caovilla, que mora em Aquiléia, conta que durante a Segunda Guerra Mundial, o Capitão de seu destacamento disse que Caovilla não era italiano, mas francês. Buscas feitas por Emílio fizeram-no retornar no tempo até Napoleão Bonaparte.
Segundo a história, Napoleão possuía um doméstico Couville que durante conquistas na região de Aquiléia, que então pertencia à Áustria, se apaixonou por uma jovem austríaca com a qual se casou permanecendo na região de Aquiléia, que mais tarde passou a pertencer à Itália. E, de lá, com o tempo, de acordo com as transcrições dos tabeliões passou a chamar-se Caovilla. O que sustenta essa versão é que em retratos de família não se encontra ninguém com o nome de Caovilla, mas sim: Couville, Couvile e Couvilla, todos irmãos.
Aquiléia, por ter sido um porto importante e uma cidade estratégica cresceu até ter, aproximadamente, 40.000 habitantes. Mapas do império Romano fazem crer em até 150.000 habitantes, e pela necessidade de trabalho, alguns ancestrais nossos emigraram pelo continente procurando novas colonizações, estabelecendo-se na região de Treviso, e mais precisamente de Cavasagra - o berço dos Caovilla.
Aquiléia é uma cidade construída sobre ruínas de uma outra, o que é comprovado por suas igrejas que apresentam três pavimentos. O terreno era engolido, de modo que a cidade afundava consumindo a população e juntamente, alguns Caovilla.
Hoje se pode pensar que o retorno de um braço de Caovilla para Aquiléia deu-se no intuito de procurar o passado, alimentar as lembranças, recomeçar.
Para nós, Caovilla brasileiros, nosso berço na Itália se encontra em Cavasagra, no local chamado Casa Caovilla.
Em Cavasagra também não há registro datado de quando surgiu a família. Mapas nos mostam que no século XVII já existiam Caovilla em Copnna di Casacorba, Brusaporco...
Um trecho do livro "Stare a Vedelago, uma storia per sette paesi " diz:
"... A abertura ao culto da nova igreja aconteceu em 29 de janeiro daquele mesmo ano, por mão do pároco de Albaredo, Bartolomeu Vici, que na ocasião, deu este sintético testemunho escrito: Faço perpétua memória ao meu sucessor (sic!), que no dia 29 de janeiro próximo passado de 1741 abençoei a Igreja de Casacorba com os dois altares laterais e no dia17 de dezembro abençoei a Tribuna com o Altar Mor e no mesmo dia, celebrei a Santa Missa sobre o mesmo; no dia 18 permiti que fosse sepultado na igreja o cadáver do Sr. Anzolo Caovilla porque ainda não havia sido feito o pavimento, e me deram de esmola um ducado de prata."
Não conseguimos descobrir quem fosse Anzolo Caovilla. Na Itália soubemos que existiram mestres de obra, construtores, religiosos, etc... Caovillla, mas não encontramos nenhum Anzolo em nossas pesquisas .
Uma outra história nos leva a Casacorba. Conta o nono Henrique e outros Caovilla que na igreja de Casacorba é que eram batizados os Caovilla.
Histórias e mais histórias eram contadas pelos pais aos filhos, avós aos netos, e ao final tudo aponta para o mesmo local, ao menos para nós brasileiros: a casa Caovilla em Cavasagra, Itália. Em Cavasagra habita um Caovilla, Giuseppe, na Via Sile, 19, distante cerca de três quilômetros da Casa Caovilla. Com ele fui ao local. A ansiedade e a expectativa eram grandes, pois em breve estaríamos no lugar onde meu avô disse que nascera seu pai, e onde viveram nossos antepassados.
De bicicleta, que é muito comum na região, eu e o nosso nono "Beppi" (apelativo de Giuseppe) percorremos os três mil metros que separam sua residência da Casa Caovilla que hoje pertence a uma outra família.
Ao chegar a emoção foi muito grande, o coração disparou e eu fiquei por um momento estático diante da Casa. Meu avô já havia falado muito sobre ela, mas, a realidade é muito mais emocionante.
Lá estava ela, branca, de alvenaria, telhas envelhecidas, dois andares, duas grandes portas, celeiro, cozinha, quarto, forno de pão...
Toda a hist´roia narrada pelo meu avo me vinha à memória. Lagrimas queriam brotar em meus olhos, depois de 100 anos da partida de meu avo ao Brasil fui eu o primeiro descendente brasileiro a voltar à casa onde meu bisavô havia nascido. Os meus olhos se fecharam por um momento e pude recordar meu avo Henrique me dizendo: "Ruvie, quando você chegar ao local, feche os olhos para que eu também possa ver o local onde nasceu meu pai." Quando retornei ao Brasil e lhe mostrei as fotos ele me disse: "Ruvie, é exatamente como dizia meu pai, e como eu a imaginava".
Olhava para todos os lados, e ficava imaginando como era antigamente, como habitavam juntos [...] o Capo, quem eu era? Sonho? Não sei, mas naquele momento estava vivendo aquele momento. Parecia ouvir lá do ano de 1865, a parteira gritar "è um menino!" e a festa de Luigi Caovilla por um outro filho homem, pela alegria de todos os Caovilla que ali moravam. E o nome dado foi Ferdinando.
A história Caovilla
Minha história se inicia sem data precisa. Lá pelos anos de 1800 quando um jovem chamado Ângelo Caovilla conheceu uma moça de nome Ângela Tempesta. Não sei se foi amor à primeira vista ou se foi coincidência do destino que os dois se chamassem Ângelo e Ângela. O certo é que depois de um, dois, três encontros descobriram que tinham algo em comum, e decidiram contrair núpcias para formar ima nova família. Abençoados por seus pais, foram habitar a Casa Caovilla, em Cavasagra, Itália, e começaram assim o pequeno tronco da família Caovilla italiana.
Festa e mais festas entre famílias, danças, comida, bebida.
Família é algo muito importante, ninguém consegue viver sem uma. Para os italianos a família é o que tem mais valor na vida, e isso não era diferente para Ângelo e Ângela.
No dia 4 de agosto de 1826, a primeira alegria resplende na face do jovem casal, nasce Luigi. A vida foi passando, trabalhos, dificuldades, filho crescendo... tudo isso fazia com que Ângelo e Ângela batalhassem todos os dias e dedicassem um pouco mais aos valores primordiais: a família. A recompensa veio. No dia 13 de maio de 1830, Giosué vinha ao mundo para a alegria dos pais e do irmão e, também para a aumentar a família Caovilla.
Novamente o tempo correu. Trabalho, alimento, festas, filhos crescendo.. Tudo parecia repetir-se.com no inicio. Não faltava o amor entre eles e a dedicação dos dois para com a família. Tendo Luigi 9 anos e Giosuè 6 anos, seus pais Angelo e Angela, seus tios e primos festejavam mais uma vez, pois nascera no dia 23 de maio de 1836, Pietro, o ultimo filho do casal Caovilla.
Assim, nosso tronco de árvore Caovilla chegava ao fim, pois já estava formada na Casa Caovilla, Cavasagra, oriunda de Ângelo Caovilla e Ângela Tempesta.
Ramos menores foram surgindo com o tempo, dos quais falarei na sequência.
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